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Melancolia – Crítica

★★★★★

“Uma bela história sobre o fim do mundo”

Foi assim que Lars Von Trier descreveu brilhantemente a história de sua película sem dar nenhum spoiler, “uma bela história sobre o fim do mundo”. Eu já chamaria de “O mindfuck do ano”. Graças ao Cinema Lumiére do Shopping Bouganville, pudemos conferir na íntegra e antecipadamente essa obra prima do polêmico diretor – sem mamilos – que nos trouxe mais uma devida obra de arte. Trabalhando simbolismos, sentimentos, ficção científica e personagens pra lá de densos, em um balé artístico cinematográfico sem precedentes nos últimos anos. Se isso não desestabilizar sua mente, nada mais será capaz. Esses são uns dos poucos momentos em que gostaria de dar nota 6 de 5, pois até Von Trier é um dos poucos que consegue nos fazer digerir um filme por dias e dias após termos visto, não importa qual perspectiva escolha para abordar cada assunto.

Como na maior parte do filme, visualmente impecável

Meio complicado falar da premissa sem entregar nada, ao mesmo tempo é impossível entregar parte do filme sem falar dele inteiro. A descrição do diretor/roteirista é a melhor possível, mas em um caráter introdutório, observamos o casamento de Justine e Michael em uma idílica propriedade em um campo de golfe de seu cunhado com sua irmã. Em meio a ruptura e desestrutura familiar visível, um planeta gigantesco e misterioso chamado Melancolia se aproxima da Terra rapidamente.

O gênio em ação

O que fala tanto quanto o filme, é a reputação indiscutível de Lars Von Trier. Nesse, não diferente dos outros, está a polêmica de sua passagem em Cannes e suas coletivas, na qual ele fez uma brincadeira muito mal compreendida e expressada totalmente fora de contexto pela mídia. Não defendendo a apologia aos nazistas citados na história, mas isso definitivamente não é o foco que o filme deveria tomar, o do “filme feito pelo judeu que exalta o Holocausto”, mas sim uma obra de impecável detalhismo, graça e leveza diretorial e de roteiro. Com uma única música, inclusive causadora de toda a polêmica, Tristão e Isolda de Wagner, conseguiu não apenas sonorizar o filme, mas transforma-lo quase em um videoclip clássico. Toda a polêmica começou porque sua inspiração para o uso da música veio da correlação do compositor clássico alemão com o uso da estética da sua produção no Holocausto nazista. Refletindo a respeito do filme, qual outra música seria melhor para reflexão sobre o extermínio da humanidade por algo muito maior do que nosso próprio planeta? Talvez sua correlação não fosse tão errada assim, somente o senso de humor politicamente correto atual que seja um dos culpados.

Mais simbolismo do que somos capazes de absorver em poucos segundos

Polêmicas a parte, não apenas ele foi feliz na escolha de sua estética, seja musical, visual ou contextual, mas também na escolha dos atores. Kirsten Dunst protagoniza a película e leva Melhor Atriz em Cannes, não a toa. Provavelmente a melhor coisa que já vi ela fazer até hoje. Até dá um pouco de peninha de tê-la visto se sujeitar a ser Mary Jane em uma triologia cada vez mais decadente de Homem-Aranha – sem contar outras vergonhas alheias – Mary Jane vadia? Redimida. Seu contraponto é sua irmã, interpretada por Charlotte Gainsbourg, musa de Von Trier a essa altura. Ela faz sua irmã casada com o milionário Kiefer Sutherland, que finalmente deixa sua fachada de ator de ação, conquistada a duras penas em 24 horas e filmes subsequentes, para fazer um pai de família levemente escroto e em negação. É em Gainsbourg que vemos transpor o protagonismo do filme da perturbarção mental de Justine para a firmeza na realidade de sua irmã Claire. As duas representando duas facetas muito comuns a todos os seres humanos, a sabedoria melancólica e o conformismo cultural atual. Não bastasse isso temos Stellan Skarsgård, que é um dos meus queridos atores e muito pouco reconhecido, no mesmo filme que seu filho Alexander Skarsgård – o qual faz um papel menor também, de noivo de Justine – mas que roubam a cena quando possível. Na cobertura de tudo isso está John Hurt, mostrando que nunca existe papel pequeno demais. Atuação esplêndida com meia dúzia de palavras e muitos olhares.

Drama familiar é pano de fundo ou plot principal? Indiferente...

Se teria que citar uma grande novidade de Von Trier nesse filme, seria o uso dos efeitos especiais. Em grande abundância, os efeitos digitais surgiram, especialmente nas primeiras e últimas partes do filme, para pintar a gigantesca tela com obras de arte em movimento. Seja com o uso de uma supercâmera aliada e um chroma key absurdo, nosso amigo Lars se aproveita de imagens densas não em gráficos pesados, como em alguns de seus outros filmes, mas em conteúdos densos de personagens bem trabalhados. A abertura lhe deixa estupefado e o final termina de arrancar as pregas mentais que ainda lhe sobraram ao longo do filme. Uma jornada que lhe faz esquecer das duas horas de película em troca de uma chuva de símbolos e reflexões sobre diversas coisas: Nossa insignificância no universo, a solidão existencial, o contraponto entre sonhar e viver e outras tantas questões que nem se pode colocar em palavras, apenas assistindo.

Melhor Atriz em Cannes... não a toa, mas Gainsbourg é outra metade da laranja.

Não foi até muito depois de ter visto o filme, que me vi sendo pego por todos os furos científicos do que seria uma pretensa ficção-científica, mas isso se dá por conta do fato que o filme não se centra no científico, mas no caráter sonho/pesadelo que os personagens vivem nessa reclusa e remota casa de campo luxuosa, enfrentando, como todos nós, a inevitabilidade da morte. Afinal de contas, o que é o fim do mundo além de uma sincronia de finais de vidas, finais esses aos quais estamos fadados inevitavelmente? Adaptem seus olhos e ouvidos para algo fora do circuitão americano normal e se maravilhem com a maior e mais densa viagem audiovisual que já tiveram nos últimos anos, com uma estética impossível entre o cinema americano e o holocausto nazista… da sua mente.




Comentários

  1. critica perfeita fernando , a louca aqui so ficou empolgada com o vestido de noiva da atriz , moda ne fazer o q

    1. Fernando Quirino disse:

      Ado, ado, ado… eu nem direito pro vestido olhei hahahaha Ponto pra vc tb ué =]

  2. Kamila K Kalaoun disse:

    Ótima crítica a minha??? A sua ficou FDP!!! Perfeita!

    1. Fernando Quirino disse:

      Ah, eu tento. São estilos diferentes, cada um fodáximo a sua maneira… Vamo declarar empate então? =D

  3. Renato disse:

    Fernando, passei aqui para agradecer sua visita lá no meu review sobre Capitão América… aí tu já tinha feito uma sobre Melancolia… demorei muito para voltar aqui…hehehehe

    Não acho que o filme seja uma OP, mas é bom.
    Também fiz uma humilde crítica sobre o filme. Dá uma olhada aqui:
    http://cinelogin.wordpress.com/2011/08/09/cinema-

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