




Nada do que se esperava, tudo que se precisava assistir
A frase acima seria a melhor forma de descrever Na Estrada, nova empreitada gringa americana do diretor Walter Salles. Isso porque ele foi vendido absurdamente errado, como um mero teen road movie com Kristen Stewart e o cara de Tron: O Legado. Muito longe disso. A maioria dos personagens é bastante “dispensável” e o protagonista, que não é nenhum dos dois atores “principais”, nos leva em uma poética jornada de descobrimento, que não é um filme para os fracos de estômago. Longe do que os teens de hoje estão procurando no cinema.
Na Estrada centra na amizade entre Sal Paradise e Dean Moriarty, pela visão do escritor Sal, que vai desde sua adolescência até seu amadurecimento, marcados por longas viagens de carro e onde a vida os levou entre cada uma delas. Baseado no livro homônimo de Jack Kerouac, é uma história visceral retratando a Beat Generation através dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra.
Walter Salles volta a suas origens no também nômade Terra Estrangeira e, porque não, Central do Brasil, para redescobrir sua linha de edição lenta, demorada, deprimente e que retrata bem o que é a estrada, as viagens, não fincar raízes e as reflexões que isso pode trazer. Também voltamos as cenas fortes, de sexo, de drogas, de realidade da juventude nada enfeitada da censura quase para maiores. O retrato cru em cenas e cortes longos e subjetivos se mistura a ótima música, em sua maior parte soul music do jazz e blues da época, com narração e atores escolhidos a dedo. Com certeza uma das obras primas diretoriais de Salles, tirando o fato que odeio a lentidão de seu desenrolar de cenas, principalmente na primeira meia-hora a uma hora de filme. Pessoas saindo da sala, como não via desde Árvore da Vida de Terence Malick.
O elenco é um caso a parte, talvez o grande erro de publicidade do filme. Kristen Stewart foi vendida como atriz principal também no filme e sua participação é pontual, pequena, mas recheada de topless e carisma, mesmo sendo novamente a dramaturga mais inexpressiva da película. Difícil saber se ela está feliz ou com raiva na mesma cena. Fora esse erro de escalação e publicidade, Garrett Hedlund mostrou bastante potencial para drama, mas ainda está longe de um ator soberbo. Tom Sturridge e Sam Riley se mostraram também boas revelações, talvez um tanto quanto acanhados em meio a tantos astros e uma produção dessa proporção, mas até que se viraram bem. Sturridge melhor que Riley, o qual seria o protagonista. Fora isso, foi um entra e sai de estrelas que, obviamente desperdiçadas, bateram ponto apenas para ajudar a vender o filme. Odeio isso tanto do lado cinematográfico quanto do publicitário. É pura enganação do público, vendendo os atores em teaser posters, tentando achar os fãs de Amy Adams, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Alice Braga (topless, opa), Terrence Howard, entre outros. São todos ótimos, com Oscars ou indicações e muito currículo, mas… poxa. Pra que, não é mesmo? Personagens deixam de ser as almas anônimas e caridosas que encontramos no mundo nômade para serem pontos pivotais e centrais na história, sem necessidade.
Acho que o principal erro de Na Estrada é esse. Levando muito em consideração aquele ditado “Não é o destino da jornada que interessa, mas quem viaja com você”, acaba errado ao dar maior atenção aos personagens de cada “parada” do que para os dilemas pessoais dos personagens que vão e vem a bel prazer do roteirista Jose Rivera. Mas vamos nos ater aqui nos acertos, e não estou falando só dos maravilhosos topless e da tensão sexual no cinema durante as tórridas cenas de sexo. É o lado real e cru da juventude que atrai. É aquele ardor e inquietude de criar algo, de ser algo mais na vida além de um mero estudante universitário. É o comichão de descobrir o mundo, novos lugares, novas pessoas, novos sabores. Através da vida miserável e sofrida da estrada, Salles mostra para nós o quanto estamos mortos, parados no lugar, conformados.
O ponto é que Na Estrada é um filme poético, recheado de música, poesia e dilemas pessoais, com um final forte e mais contundente do que todo o filme, sem necessidade de apelação. Nesse ponto é uma película quase obrigatória se você curte poesia, soul music, viajar, ou simplesmente pensa em refletir com o que tem feito ou fez da sua juventude. Porque o que vamos levar da vida, serão as lembranças e as amizades, o resto é consequência disso. Sal passa muito bem esse sentimento, já nas primeiras cenas do filme, enterrando seu pai, até o final dramático. Então, se você é uma pessoa assim, esse é um filme mais do que recomendado. Senão… Cavaleiro das Trevas Ressurge está chegando aí. Guarde seu dinheiro para algo mais simples e fácil de digerir.

























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